Faleceu no dia 04 de junho a quadrinista franco-iraniana Marjane Satrapi (1969-2026), mundialmente conhecida pela obra “Persépolis”. Uma infeliz coincidência que o falecimento da autora ocorra em meio a uma guerra envolvendo o Irã, Estados Unidos e Israel.
Persépolis, o quadrinho com o qual Satrapi ganhou fama mundial, conta parte de sua infância e juventude, vivendo as consequências da Revolução Islâmica de 1979, no Irã, seu país natal. Persépolis retrata muito bem o fanatismo religioso, principalmente as imposições e restrições culturais, das quais as mulheres são particularmente atingidas; como no caso do uso obrigatório do véu – uma das primeiras medidas impostas pelo regime do aiatolá.
As críticas de Satrapi ao Irã fundamentalista não demoraram para ser instrumentalizadas pelos Estados Unidos, e outros meios de comunicação na Europa e América Latina, como uma forma de propaganda anti-Irã. Mas a própria autora deixa muito claro sua posição, repudiando tanto o fundamentalismo iraniano, quanto o fundamentalismo ocidental. Em entrevista para o site Asia Society ela argumenta: “O governo iraniano diz que você tem que ler o Alcorão, e Bush diz que você deve ler a Bíblia! O governo iraniano diz que vai combater o mal, e os EUA também estão combatendo o mal. Ambos estão convencidos de que Deus os apoia. Então, a terminologia que eles usam é a mesma, mas pelo menos todo mundo conhece o regime do Irã. Em primeiro lugar, o Irã é um país pequeno, comparado aos Estados Unidos, sem poder, e todo mundo no mundo tem uma vaga ideia do que se trata. O que é extremamente assustador é que o presidente dos Estados Unidos, uma democracia, fala a mesma língua. Como isso pode ser uma democracia, então?”¹ Esta entrevista foi concedida numa época em que os EUA viviam sob a presidência de George Bush, e ainda nem imaginavam a tragédia do futuro governo Trump,
Na mesma entrevista, Satrapi não perdeu a oportunidade de questionar a hipocrisia dos Estados Unidos: “Por que os Estados Unidos da América podem ter armas nucleares se são responsáveis por Hiroshima? Eles usaram material nuclear até no Iraque, então como podem justificar ter armas nucleares? Esse urânio que eles usaram no Iraque, e as crianças que nasceram lá têm todos os tipos de doenças. Quem são eles para dar lições de moral para o resto do mundo?”
Para a autora, o povo iraniano que deveria tomar seu destino nas mãos e reformar a política do país, sem interferências ou intervenções estrangeiras. Tanto que a autora sempre se posicionou favorável a manifestações em seu país, como atesta o quadrinho “Mulher, vida, liberdade”, obra organizada por ela e lançada em 2023 como uma forma de protesto com o ocorrido com a jovem Mahsa Amini; morta por descumprir a lei da obrigatoriedade do véu. A morte de Amini provocou uma onda de protestos em Teerã e outras cidades iranianas.
Se você leu Persépolis e ficou indignado com o regime iraniano, mas defende uma intervenção estadunidense para "salvar" o país, você leu a obra errado...
¹ https://asiasociety.org/marjane-satrapi-i-will-always-be-iranian

Boa análise!
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